quarta-feira, 12 de maio de 2010

Nós estivemos lá!


"O irmão Francisco promete obediência e reverência ao Senhor Papa N e aos seus sucessores canonicamente eleitos e à Igreja Romana (...)" Regra Bulada 1, 2


Uma da tarde, as andorinhas esvoaçam atarefadas em volta do convento, naquele percurso desenfreado que só elas conseguem descortinar, nós - grupo de noviciado e alguns irmãos -apressados em sair rumo a Fátima. A viagem, sem nenhum incidente, é envolta de alegria por poder estar com o Papa - Viva o Papa! - e assim, em júbilo interior, que o semblante não consegue disfarçar, chegamos à terra que a Mãe de Jesus quis aparecer, a três pequenos pastores, com uma mensagem tão urgente, importante e actual para o mundo.
Em Fátima o movimento é constante e agitado, os peregrinos, exaustos, vão chegando ao destino depois de horas de sacrifício, de entrega e de coragem; a polícia controla todos os perímetros, mas não há pânico, são irmãos que só nos querem proteger (quem dera que fosse sempre assim!); todos, uns mais apressados outros menos, têm o mesmo destino: o Santuário.
Naquele lugar, onde um dia só se viu montes, azinheiras e rebanhos, está uma multidão que se adivinha aumentar. Em todo o lado há orações, sentido do sagrado, encontro com o Divino. A capelinha está cheia, ninguém arreda pé e, à sua volta, grupos imensos de peregrinos dos quatro cantos do mundo, vão-se acomodando o melhor que podem, mais que não seja, no chão alcatroado do recinto.
A Igreja da Santíssima Trindade espera pelo Papa - Viva o Papa! - mas também espera Bispos, Sacerdotes, Religiosos, Seminaristas e Leigos envolvidos na Pastoral, naquele que seria o encontro dos consagrados com o sucessor de Pedro. As portas ainda não abriram e já filas imensas circundam o edifício. Dão-se os encontros e reencontros, daqueles que na sua entrega total a Cristo vão encontrando o testemunho e a entreajuda noutros que na mesma entrega tentam ser sal e luz no mundo. Há festa, sorrisos, abraços, saudações; há fé; expressa no seu expoente máximo, a comunhão.
As portas demoram em abrir, o tempo previsto já passou há muito, mas ninguém se chateia. Sempre há mais tempo para matar saudades, ou melhor, alimentá-las. De repente, a fila começa a andar - as portas abriram. De passo apressado todos se dirigem para o interior, a fim de encontrar o melhor lugar para ver o Papa - Viva o Papa! - passados os pontos de segurança, cada um se encaminha segundo as indicações dos voluntários.
Falta mais de uma hora de espera, mas o tempo é nosso amigo, porque parece voar. No meio do burburinho, enquanto se procura na multidão alguém conhecido ou se os restantes irmãos estão instalados, começam os ensaios para a oração de Vésperas. Mas o Papa - Viva o Papa! - chega a Fátima de helicóptero e nós acompanhamos pelo écrans gigantes instalados nas laterais do altar. Palmas, muitas palmas, e pouco ensaio. A cada movimento, palmas, muitas palmas e pouco ensaio. Entretanto o Colégio Episcopal vai aumentando no altar, uns contemplam a multidão irrequieta, outros conversam entre si e, outros ainda, acompanham o Santo Padre nos ecrans. Com ele, rezamos à Senhora de Fátima e com ele nos consagramos, diante da imagem ornada com "prata e ouro da alegria" mas também com a bala "da dor e das preocupações".
Seis e pouco da tarde, o Papa chega à Igreja da Santíssima Trindade. Depois de se paramentar na Sacristia com as vestes corais, entra a procissão solene em direcção ao altar debaixo de uma enorme ovação. O Papa - Viva o Papa! - a todos saúda, a todos acena, a todos sorri. Depois de cantado o hino inicial, o presidente da Comissão Episcopal das Vocações e Ministérios, Dom António Francisco dos Santos, saúda o Santo Padre manifestando a alegria pela "benção e a graça que esta visita constitui para toda a Igreja e para Portugal".
Exposto o Santíssimo, iniciou-se a recitação dos salmos e depois da leitura breve ouvimos com extrema atenção as palavras de Bento XVI: "A todos vós que doastes a vida a Cristo, desejo nesta tarde exprimir o apreço e reconhecimento eclesial. Obrigado pelo vosso testemunho muitas vezes silencioso e nada fácil; obrigado pela vossa fidelidade ao Evangelho e à Igreja." Depois, dirigindo-se ao formandos: "A vós, queridos seminaristas, que já destes o primeiro passo para o sacerdócio e estais a preparar-vos no Seminário Maior ou nas Casas de Formação Religiosa, o Papa encoraja-vos a serdes conscientes da grande responsabilidade que ides assumir: examinai bem as intenções e as motivações; dedicai-vos com ânimo forte e espírito generoso à vossa formação. A Eucaristia, centro da vida do cristão e escola de humildade e serviço, deve ser o objecto principal do vosso amor. A adoração, a piedade e o cuidado do Santíssimo Sacramento, durante estes anos de preparação, farão com que um dia celebreis o Sacrifício do Altar com unção edificante e verdadeira."

Terminada a homilia, depois das palavras sentidas do Sumo Pontífice, segue-se o acto litúrgico. No fim, antes da benção final, um prolongado silêncio em adoração ao Santíssimo exposto, nessa união mística a Jesus Sacramentado.


Recebida a benção, mais uma ovação, desta vez de despedida, com o coração a transbordar de alegria e com o espírito rejubilante. O tempo, esse, afinal acabou por nos trair, porque continuou a correr. É chegada a hora do adeus, uns ficam, certamente a maioria, mas os de Varatojo têm de voltar. Alimentado o irmão asno, a estrada é o nosso caminho em direcção ao lugar da partida.
À chegada, as andorinhas já não voam, estão nos ninhos.
Frei Sérgio

2 comentários:

  1. Sim. Uma sensação única! Valeu a pena aceitar todos os incómodos para saborear o privilégio de ser uma grande comunidade - Igreja - unida ao seu Pastor. Deus seja louvado!
    Parabéns pela forma realista e até poética como comunicaste as impressões desta nossa presença junto do Senhor Papa!

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  2. Frei Sérgio, você escreveu e descreveu bem essa experiência de estar junto com tantos consagrados e o Pastor com quem nos gloriamos de professar a nossa fé em Cristo, vivida na Igreja Católica. Agradeço seu retrato do encontro com o Papa feito através do seu olhar franciscano, modesto e profundo. Bem haja!

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