sábado, 22 de maio de 2010

"O Pai habita numa luz inacessível (1 Tim 6, 16). E Deus é espírito (Jo4, 24). E a Deus nunca niguém O viu (Jo1, 18). Pois Deus é espírito, não pode ser visto senão graças ao espírito, porque o espírito é que dá vida e a carne não serve para nada (Jo 6, 63). Ora, também o Filho, enquanto é igual ao Pai, de ninguém pode ser visto senão do modo como se vê o Pai, senão, do mesmo modo, graças ao Espírito Santo."

1ª Exortação de S. Francisco, 5-7



Estamos a festejar o Pentecostes. Esse mistério de Deus, que infunde o seu Espírito e faz com que os homens (primeiramente os Apóstolos e Maria) saiam a anunciar, em várias línguas, a Boa Nova de Jesus Ressuscitado.É, verdadeiramente, um grande mistério que só pode ser vivido através da iluminação do Espírito Santo.

Neste breve trecho, São Francisco diz que "Deus habita numa luz inacessível", que "Deus é Espírito" e que "a Deus nunca ninguém o viu", utilizando as próprias palavras da Sagrada Escritura. À primeira vista, isto causa-me um certo temor e tremor porque, se Deus é inacessível, como posso viver na presença de Deus? Na entrega a Deus, como posso ter certeza que Ele me chama, me guia e acompanha?

Logo a seguir, referindo-se ao Filho, diz que também Este é como o Pai, logo, inacessível, invisível, espírito. As dúvidas ganham maior acuidade, porque, efectivamente, não existem garantias nem qualquer tipo de segurança.

Caramba (perdoem a expressão)! Como seguir Deus, se caminhamos, à primeira vista, num completo vazio?

Reflectindo nisto, recordo os primeiros tempos da Igreja e vejo que também assim foi. Os Apóstolos, todos eles, também duvidaram, também se amedrontaram, mas tinham a certeza de que Jesus os guiava através do Espírito que brota do seu amor com o Pai e, mesmo caminhando num completo desconhecido, reconheciam a presença e a obra de Deus.

Recordo, também, Maria, que sem nada compreender, "conservava todos (os) factos e meditava sobre eles no seu coração" (Lc2, 19) e , nesse recolhimento, permaneceu toda a vida de Jesus até à cruz. O lugar predilecto do Espírito, o coração.

Vendo a minha caminhada pessoal, reconheço dúvidas, até mesmo falhanços, inseguranças... mas uma acção do Espírito que vai iluminando todos esses momentos e guiando-me. Não são acções sobrenaturais, não são actos mágicos, visões alucinantes; são pequenos sopros, brisas suaves, que dão alento e coragem no caminhar; por vezes invisíveis no momento, mas que se manifestam no fundo do ser, mais fundo que o coração; lá, onde o abismo da existência só é conhecida por Aquele que a habita, Deus.

Num tempo onde as certezas são tudo, Deus continua igual a Si próprio, porque Ele é intemporal; não foi, é e será, apenas é, num é eterno.

Queridos irmãos que nos acompanham neste espaço, com estas palavras quero apenas partilhar que o chamamento de Deus continua a ser loucura à vista dos homens, mas eleva o próprio Homem ao seu estado maior, que é o Amor. Deixar-se abrasar pelo Espírito Santo não é tanto rezar "tudo", dar-se todo a todos e gritar que Jesus está vivo. São, certamente, consequências! Deixar-se abrasar pelo Espírito Santo é dizer a Deus, como Maria, "eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra" (Lc1, 38) e deixar-se levar, sem saber para onde, como e quando, mas na certeza de que Deus nos guia através do seu Espírito, que Jesus nos deixou como seu Pai tinha prometido.

Uma santa noite

Frei Sérgio



PS: Respondendo a um comentário, deixado por um anónimo, no início deste blog, no segundo post, referimos que o intuito desta partilha era dar a conhecer os textos do Pai Francisco. Logo, todas as citações como Exortações, Carta aos Fiéis, etc, são escritos de São Fransciso (salvo excepções como citações da Sagrada Escritura ou de outras fontes devidamente identificadas). Obrigado pela observação e pela leitura assídua e atenta.

1 comentário:

  1. Realmente o mistério de Deus penetra o mais íntimo e profundo do nosso ser. Aí se deposita, solencioso. Não há respostas sábias, mas sábio acolhimento do mistério na fé e no silêncio contemplativo.
    E um sentimento forte de gratidão brota claro e profundo como reposta à limitação da inteligência. "Como sois grande em toda a trerra, Senhor, nosso Deus"!...
    Parabéns, Frei Sérgio, por esta reflexão que ofereceds aos nossos amigos bloguistas.

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