Um olhar ao “Destino do Homem e do Mundo” de Leonardo Boff...
Acho este texto é muito interessante para mim e quero partilhar convosco este pensamento do autor.
Vocação é um chamamento, uma destinação e um futuro. Perguntar pela vocação de alguma coisa ou de alguém é perguntar a que ele esta destinado e a qual futuro está chamado. A vocação orienta-se eminentemente para um futuro. Por isso a vocação é uma tarefa constantemente a ser realizada. Na raiz da palavra vocação está a palavra vox, vocis, voz. Certamente cada um de nós, como vocacionado, já ouviu esta voz, voz interior e continua a chamar-nos do profundo do nosso ser para uma missão a nós destinada. Por vocação transcendental e escatológica da criação entendemos aquela vocação que se apresenta como a derradeira (escatológica) e que transcende (transcendental) as vocações e os fins imediatos e penúltimos que ela possa ter. A vocação a que o mundo está chamado é sublime: Deus mesmo. Se a criação toda está vocacionada para Deus a fim de tornar com Ele uma radical unidade na riqueza das diferenças (Deus ficará sempre Deus e a criatura sempre criatura), então com muito mais razão, ponto culminante da criação. Qual é a vocação última do homem? A que futuro está chamado? O homem é invocado a ser totalmente ele mesmo na realização de todas as capacidades que latejam dentro da sua natureza. Ele é constituído como um nó de relações voltado para as direcções, para o mundo, para o outro e para o absoluto.
O homem surge como um ser aberto à totalidade da realidade. Só se realiza se se mantiver em comunhão permanente para a globalidade de suas relações. Por isso é só saindo de si que o homem permanece como homem em si mesmo. É dando que o homem tem. Quanto mais estiver orientado para o infinito mais possui a possibilidade de harmonizar-se, isto é, de realizar seu ser humano. O homem não é só sucesso e ânsia de plenitude. Ele é também fracasso e rejeição. O homem está destinado a ser -um com Deus e com isso a ser totalmente divinizado. A completa humanização do homem supõe sua divinização. Isto significa: o homem para tornar-se verdadeiramente ele mesmo deve poder realizar a capacidade máxima inscrita em sua natureza de ser um com Deus, sem divisão e sem confusão.
Deus poderia ter criado os homens na comunhão com Ele e assumi-los todos. Ele quis uma história longa, da liberdade humana, onde houvesse também a possibilidade da participação livre do homem ou da sua negação. Nessa história Deus mesmo se inseriu. Ele quis a vocação transcendental e escatológica do homem. O homem foi convidado a participar ao próprio acto criador de Deus. Quis que, de alguma forma, cada qual merecesse e conquistasse ser Deus -humano ou homem -divinizado. A vocação transcendental e última vem por isso medializada por outras vocações históricas. O fim último do homem vai-se realizando paulatinamente nesse modo dentro dos fins mediatos; a vocação derradeira e fundamental do homem se concretiza nas vocações temporárias e terrestres. Contudo nenhuma vocação terrestre esgota e realiza plenamente a vocação derradeira. Em Jesus Cristo já temos as primícias e a vocação do homem e do mundo totalmente realizadas. O homem e o mundo não correspondem ainda à vocação definitiva a que foram chamados por Deus. O homem que se nega ao crescimento humano e que não quer evoluírem todas as suas dimensões fecha-se ao chamado de Deus que se faz sentir nos dinamismos e de seu próprio ser.
Fundamentalmente, qualquer vocação terrestre é boa, conquanto se mantenha aberta à vocação transcendental e escatológica. O decisivo e absolutamente imprescindível é situar-se no caminho para Deus. As vocações terrestres são de extrema importância porque elas significam a encarnação da vocação absoluta dentro do tempo e da história. Só no amor radical que o homem se realiza, porque unicamente no Tu absoluto do amor que o eu encontra adequadamente o eco do seu grito. Mantendo-se aberto a esse amor pode realizar, no tempo, a vocação transcendental e escatológica.
Há uma vocação terrestre fundamental do homem que ele tem de realizar pelo simples facto de ser homem. O homem deve realizar aquilo que ele é e caminho – da – pátria -celeste. A primeira vocação do homem terrestre consiste em ele ser homem. O homem realizará sua humanidade caso se mantiver constantemente uma relação com a totalidade da realidade que está nele mesmo e com aquele que o cerca. Ele surge na verdade como um nó de relações voltado para todas as direcções. No relato do priestercodex (P) em Gn 1 e do Javista (J) em Gn 2 encontramos lapidarmente as três principais determinações do homem terrestre: O homem é um ser chamado a dominar a natureza e a ser senhor; o homem é um ser chamado a conviver com os outros e a ser irmão; o homem é um ser chamado a adorar a Deus e a ser filho. O homem perfeito e integrado é aquele que realiza estas três dimensões sem omitir nenhuma. O homem está colocado entre Deus e o mundo. Frente ao mundo senhor, frente ao outro irmão e frente a Deus filho. O homem não se deve deixar dominar por nada no mundo, não se deve com o mundo de tal forma que esqueça o outro e a Deus. Como também não deve se ocupar com Deus e com as coisas divinas de tal forma que venha a olvidar suas obrigações para com o mundo e com o irmão.
Que este Pensamento sobre a Vocação do Homem no Mundo, do Teólogo Leonardo Boff, nos ajude a percebermos melhor a nossa Vocação tanto Terrestre como escatológica.
PEDRO R. GONÇALVES, OFM.
Boa escolha, Frei Pedro, para partilhares das tuas leituras. L. Boff tem muito a dizer-nos e ao mundo. Esta partilha é de grande riqueza e pode ser aproveitada também pelos nossos amigos leitores.
ResponderEliminarAgora, com teu braço já consertado... a vida muda e mais podes render, ajudado por bons teólogos. Canta e toca, feliz!
Frei Armindo